domingo, 28 de fevereiro de 2016

Capítulo 2

iO dia de aulas parecia nunca mais terminar. Olhava constantemente para o relógio e quando parecia que já tinha passado mais de meia hora na realidade só tinham passado cinco minutos.
Os professores repetiam a mesma matéria e os meus conselhos sobre os exames finais. Passavam o dia a repetir que as notas iriam influenciar a média para a entrada na faculdade e que um pequeno deslize poderia ser fatal. Que este era um dos momentos mais decisivos na vida de qualquer adolescente, uma vez que o futuro profissional ficaria traçado a partir dos exames nacionais.
Verinha estava mais do que preparada para os exames. O que ela já não podia era ouvir os professores a dizer a mesma coisa vezes e vezes sem conta. As aulas começavam a tornar-se ainda mais entediantes do que o normal. Mas segundo a amiga isto era só o príncipio de uma vida entediante. A Patrícia achava que a vida adulta era a coisa mais chata do mundo, em que o ponto alto do dia era decidir que contas se haveriam de pagar. Provavelmente essa era a ideia que tinha ao observar os pais que segundo ela o único tópico eram as contas para pagar, as reduções que tinham que fazer para o mês e pensarem em novas maneiras de economizar. Por isso queria casar-se com alguém ligeiramente mais velho que já se tivesse estabelecido a nível profissional de forma a que a sua única preocupação fosse a casa e os filhos. Trabalhar e preocupar-se com contas é que não. A vida adulta não era só isso. A Verinha tinha o exemplo dos pais e apesar das dificuldades raramente falavam em contas em frente aos filhos e passavam a maior parte do tempo a sorrir. Ela sabia que as coisas não estavam fáceis porque às vezes ouvia-os a falar, como se estivessem aos segredinhos, sobre o que teriam que fazer para pagar as propinas caso ela entrasse na faculdade. Ela já tinha decidido que quando fosse trabalhar para a empresa de contabilidade do pai iria ajudar com as contas da casa e com o que sobrasse comprar as suas coisinhas. Já era maior de idade e mais cedo ou mais tarde iria ter de aprender a desenvencilhar-se sem os pais, por isso mais valia começar a preparar-se.
Quando as aulas finalmente terminaram foi com a amiga diretamente ao Centro Comercial para fazer umas comprinhas.
“Mas tu perdeste a cabeça? Queres comprar roupa? Ainda ontem não querias nada com vestidos e roupas novas.”
“Epah, decidi que não posso continuar a vestir-me como se fosse um rapaz.”
“A mim cheira-me que isto está relacionado com o moçoilo que viste ontem. Tenho a certeza.”
“Em parte”, sorriu. “Já viste se ele vê-me com este macacão? Bela impressão que vai ter de mim.”
“Realmente se te vê vestida assim até foge! Não tinha ar de quem gosta de rapazes…”
“Eu não sou um rapaz!”
“Com um macacão desses não parece…”, sorriu enquanto lhe punha a língua de fora.
Entraram e saíram das lojas e sempre com as mãos a abanar. Não havia maneira da Verinha se decidir. As roupas ou tinham um defeito ou simplesmente ela não se sentia bem ao ver-se no espelho com elas. Sentaram-se no corredor do centro comercial a ganhar forças. A Patrícia já mal conseguia andar. Na sua opinião a primeira loja onde entraram e o primeiro vestido que a amiga experimentou tinham-lhe ficado “a matar”. Simplesmente não conseguia entender tanta indecisão. Quando deu por si a Verinha não estava ao seu lado. Procurou pela amiga, primeiro com o olhar e depois levantou-se para ver se a via mais ao longe. Ainda há pouco estava ali ao lado dela, como é que poderia ter desaparecido? Quando se preparava para ir à sua procura avistou-a a aproximar-se com um saco na mão.
“Onde te meteste? O que é que te deu?”
“Olha fartei-me desta busca incessante por vestidos e roupinhas mais femininas. Não é o meu estilo e não tenho mesmo paciência para essas mariquices.”
“Mas foste tu que quiseste vir às compras! Desta vez nem fui eu que te obriguei como sempre.”
“Eu sei, mas senti-me uma palhaça nessas roupas. Nem sei se vou voltar a ver aquele rapaz e se o vir... Olha, ele que goste de mim como sou. Não tenho paciência.”
“Mas o que tens então no saco? Não desististe?”
“Desisti dos vestidos e palermices, mas não desisti de uma roupinha nova! Comprei uns jeans e duas t-shirts. E um par de ténis da adidas.”
“Mas isso tudo em 5 minutos? Ainda agora estavas aqui ao meu lado!”
“Eu sabia o que queria, sei o meu número, entrei na loja apanhei, paguei e saí.”
“Olha nada mau. São giras as calças e as t-shirts não são tão largas como o habitual.”
“São muita “nices” não são?”
“Giras. Sim, são giras. Agora podemos ir embora? Doem-me os pés.”
“É bem feita! Tu insistes sempre nesses sapatos de saltinho alto para realçar as pernas. Realça sim, realça a dor!”
“Olha a menina que veio até aqui para comprar roupa apenas para impressionar um rapaz que nem conhece. Olha que por momentos os meus saltinhos não te pareceram muito ridículos.”
“Nunca disse que são ridículos! Apenas acho que não são minimamente práticos. E isto foi uma loucura momentânea. Sempre usei estas roupas para fugir dos rapazes e pela primeira vez quis impressionar um. Mas apercebi-me que as uso não só para afastar rapazes chatos mas sim porque sinto-me confortável nelas. O que tiver que ser será. Quem gostar de mim, que goste assim.”
Foram para casa depois de mordiscarem qualquer coisa na área da restauração. Ficaram à conversa e a Verinha apesar de estar atenta à amiga observava o que se passava à sua volta. Quem sabe o deus grego não aparecesse por ali com o seu grupinho.
Foi para casa e fechou-se no quarto. Não sabia o porquê daquele rapaz lhe ter ficado na cabeça. Ela nunca foi de se interessar por rapazes, não seria agora que ia mudar certo?
Às vezes não percebia a sua falta de interesse. Os pais eram o exemplo de um casal apaixonado e feliz e ela sempre pensou em formar uma família. Sempre soube que queria ser mãe e esposa um dia mais tarde. Mas para isso tinha que se interessar por rapazes. Por uma altura suspeitou que fosse lésbica. Pensou que provavelmente não gostava de rapazes porque se calhar gostava de raparigas. Mas mesmo assim se gostasse de raparigas por essa altura já deveria ter tido alguma paixoneta, certo? Não. Não podia ser lésbica. Se fosse lésbica não ficaria tão entusiasmada cada vez que saísse um filme do Keanu Reaves. Na volta era isso! Tinha uma paixão platónica por uma estrela de cinema e não conseguia apaixonar-se por ninguém nem achar interesse em ninguém. Provavelmente era por isso que achava o rapaz interessante. Ao lembrar-se das feições dele reparou que ele parecia-se muito com o Keanu Reaves. Riu-se sozinha no quarto. Achou piada à comparação. A paixoneta temporária iria terminar no momento em que ela voltasse a ver o filme Matrix. Só teria olhos para o Keanu e o rapaz da gelataria não tinha nenhuma hipótese, mesmo se aparecesse!
Por outro lado achava que por parte a culpa de nunca ter achado ninguém interessante era maioritariamente dos rapazes. Os únicos que tinha achado giros perdiam o interesse no minuto em que se dirigiram a ela. Engates baratos e conversas da treta tinham tendência para a enjoar. Não conseguia perceber como é possível eles saírem-se todos com a mesma linha. Provavelmente havia um professor que andava a enganar muitos alunos com as suas técnicas frustradas que nunca devem ter resultado em ninguém.
Devia haver uma escola de engates para rapazes para evitar que os pobres coitados fizessem aquelas figuras ridículas com conversas que não lembram a ninguém.
Lembrou-se de um episódio com um rapaz e começou-se a rir. Estava sentada na porta do prédio com a Patrícia. As duas sentadas frente à frente e na fofoca. Do nada surge um rapaz e mete conversa com elas.
“Então borrachos, o que fazem por aqui?”
“Desculpa?”
“O que estão a fazer miúdas?”
“Olha caso não tenhas reparado estávamos aqui a conversar. Ou é preciso fazer um desenho?”
“A morena é arisca...”
“Arisca? Dou-te a arisca. Podes pôr-te a andar daqui? Não vês que estás a incomodar?”
“Ai Verinha, não precisas de falar assim com o rapaz. Ele até é giro.” Respondeu a amiga.
“Então se quiseres eu faço-te um favor e vou lá para cima enquanto ficas aqui a falar com o João Engatatão.”
“Não disse isso. Só disse que podemos ser mais educadas. Olha, podes deixar-nos em paz por favor? Eu e a minha amiga estávamos aqui a conversar.”
“E não preferes falar comigo boneca? Olha que essa tua amiga é muito má onda.”
“A sério, vai-te embora. Deixa-nos aqui sossegadas.”
“Patricia, deixa lá estar que eu sou muito má onda. Daqui a nada vou mostrar o que significa ser má onda verdadeiramente.”
“És uma miúda muito mal disposta, sabias? Só vim aqui bater um papo.”
“E eu disse-te para ires bater um papo para outras bandas. E ainda perguntei se precisas de um desenho.”
“Verinha, deixa lá amiga. Se não se vai ele embora vamos nós. A tua mãe já deve ter preparado um petisco de sonho. Vamos embora.”
“Olha antes de ires com essa mal encarada não queres dar-me o teu número, boneca?”
Enquanto dizia isso aproximou-se da Patrícia mas não reparou no degrau. Caiu estatelado no chão mesmo em frente a elas. Desataram-se as duas a rir às gargalhadas enquanto o rapaz lutava para se levantar.
“És tão palerma que nem sabes ver por onde andas. E ainda pensas que podes engatar “bonecas”. Sinceramente...”
A Patrícia não conseguia parar de rir. A queda foi tão inesperada e a forma como ele caiu e o corpo se posicionou não permitiram manter um ar sério. Entraram no prédio e subiram as escadas a rir.
“Verinha, sinceramente. Precisavas de ser tão mal educada com o rapaz?” Conseguiu dizer depois de passar o ataque de riso.
“Não fui malcriada. Fui arisca!” e romperam numa outra crise de gargalhadas. A mãe até foi ter com elas ao quarto para saber se estava tudo bem. E quando contaram a história a mãe abanou a cabeça com ar de reprovação, mas tinha a certeza de a ter ouvido rir quando fechou a porta do quarto atrás de si.

Não conseguia deixar de rir sempre que se lembrava daquele episódio. O rapaz não era mau de todo mas era mesmo estúpido que nem uma porta e ainda ousou chamá-las de bonecas. Não sabia como a amiga tinha tanta paciência para namoricos. Mas gostaria muito de ter a oportunidade de conhecer aquele rapaz de olhos verdes e cabelo espetado. Gostaria muito de ter a oportunidade de saber se ele é estúpido como todos os outros ou se ainda dizia algo de jeito. Algo dizia-lhe que não. Algo dizia-lhe que ele tinha muita coisa para contar.


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