iO dia de
aulas parecia nunca mais terminar. Olhava constantemente para o relógio e quando
parecia que já tinha passado mais de meia hora na realidade só tinham passado
cinco minutos.
Os
professores repetiam a mesma matéria e os meus conselhos sobre os exames
finais. Passavam o dia a repetir que as notas iriam influenciar a média para a
entrada na faculdade e que um pequeno deslize poderia ser fatal. Que este era
um dos momentos mais decisivos na vida de qualquer adolescente, uma vez que o
futuro profissional ficaria traçado a partir dos exames nacionais.
Verinha
estava mais do que preparada para os exames. O que ela já não podia era ouvir
os professores a dizer a mesma coisa vezes e vezes sem conta. As aulas
começavam a tornar-se ainda mais entediantes do que o normal. Mas segundo a
amiga isto era só o príncipio de uma vida entediante. A Patrícia achava que a
vida adulta era a coisa mais chata do mundo, em que o ponto alto do dia era
decidir que contas se haveriam de pagar. Provavelmente essa era a ideia que
tinha ao observar os pais que segundo ela o único tópico eram as contas para
pagar, as reduções que tinham que fazer para o mês e pensarem em novas maneiras
de economizar. Por isso queria casar-se com alguém ligeiramente mais velho que
já se tivesse estabelecido a nível profissional de forma a que a sua única
preocupação fosse a casa e os filhos. Trabalhar e preocupar-se com contas é que
não. A vida adulta não era só isso. A Verinha tinha o exemplo dos pais e apesar
das dificuldades raramente falavam em contas em frente aos filhos e passavam a
maior parte do tempo a sorrir. Ela sabia que as coisas não estavam fáceis
porque às vezes ouvia-os a falar, como se estivessem aos segredinhos, sobre o
que teriam que fazer para pagar as propinas caso ela entrasse na faculdade. Ela
já tinha decidido que quando fosse trabalhar para a empresa de contabilidade do
pai iria ajudar com as contas da casa e com o que sobrasse comprar as suas
coisinhas. Já era maior de idade e mais cedo ou mais tarde iria ter de aprender
a desenvencilhar-se sem os pais, por isso mais valia começar a preparar-se.
Quando as
aulas finalmente terminaram foi com a amiga diretamente ao Centro Comercial para fazer umas comprinhas.
“Mas tu
perdeste a cabeça? Queres comprar roupa? Ainda ontem não querias nada com
vestidos e roupas novas.”
“Epah,
decidi que não posso continuar a vestir-me como se fosse um rapaz.”
“A mim
cheira-me que isto está relacionado com o moçoilo que viste ontem. Tenho a
certeza.”
“Em
parte”, sorriu. “Já viste se ele vê-me com este macacão? Bela impressão que vai
ter de mim.”
“Realmente
se te vê vestida assim até foge! Não tinha ar de quem gosta de rapazes…”
“Eu não
sou um rapaz!”
“Com um
macacão desses não parece…”, sorriu enquanto lhe punha a língua de fora.
Entraram
e saíram das lojas e sempre com as mãos a abanar. Não havia maneira da Verinha
se decidir. As roupas ou tinham um defeito ou simplesmente ela não se sentia
bem ao ver-se no espelho com elas. Sentaram-se no corredor do centro comercial
a ganhar forças. A Patrícia já mal conseguia andar. Na sua opinião a primeira
loja onde entraram e o primeiro vestido que a amiga experimentou tinham-lhe
ficado “a matar”. Simplesmente não conseguia entender tanta indecisão. Quando
deu por si a Verinha não estava ao seu lado. Procurou pela amiga, primeiro com
o olhar e depois levantou-se para ver se a via mais ao longe. Ainda há pouco
estava ali ao lado dela, como é que poderia ter desaparecido? Quando se
preparava para ir à sua procura avistou-a a aproximar-se com um saco na mão.
“Onde te
meteste? O que é que te deu?”
“Olha
fartei-me desta busca incessante por vestidos e roupinhas mais femininas. Não é
o meu estilo e não tenho mesmo paciência para essas mariquices.”
“Mas
foste tu que quiseste vir às compras! Desta vez nem fui eu que te obriguei como
sempre.”
“Eu sei,
mas senti-me uma palhaça nessas roupas. Nem sei se vou voltar a ver aquele
rapaz e se o vir... Olha, ele que goste de mim como sou. Não tenho paciência.”
“Mas o
que tens então no saco? Não desististe?”
“Desisti
dos vestidos e palermices, mas não desisti de uma roupinha nova! Comprei uns
jeans e duas t-shirts. E um par de ténis da adidas.”
“Mas isso
tudo em 5 minutos? Ainda agora estavas aqui ao meu lado!”
“Eu sabia
o que queria, sei o meu número, entrei na loja apanhei, paguei e saí.”
“Olha
nada mau. São giras as calças e as t-shirts não são tão largas como o
habitual.”
“São
muita “nices” não são?”
“Giras.
Sim, são giras. Agora podemos ir embora? Doem-me os pés.”
“É bem
feita! Tu insistes sempre nesses sapatos de saltinho alto para realçar as
pernas. Realça sim, realça a dor!”
“Olha a
menina que veio até aqui para comprar roupa apenas para impressionar um rapaz
que nem conhece. Olha que por momentos os meus saltinhos não te pareceram muito
ridículos.”
“Nunca
disse que são ridículos! Apenas acho que não são minimamente práticos. E isto
foi uma loucura momentânea. Sempre usei estas roupas para fugir dos rapazes e
pela primeira vez quis impressionar um. Mas apercebi-me que as uso não só para
afastar rapazes chatos mas sim porque sinto-me confortável nelas. O que tiver
que ser será. Quem gostar de mim, que goste assim.”
Foram
para casa depois de mordiscarem qualquer coisa na área da restauração. Ficaram à
conversa e a Verinha apesar de estar atenta à amiga observava o que se passava
à sua volta. Quem sabe o deus grego não aparecesse por ali com o seu grupinho.
Foi para
casa e fechou-se no quarto. Não sabia o porquê daquele rapaz lhe ter ficado na
cabeça. Ela nunca foi de se interessar por rapazes, não seria agora que ia
mudar certo?
Às vezes
não percebia a sua falta de interesse. Os pais eram o exemplo de um casal
apaixonado e feliz e ela sempre pensou em formar uma família. Sempre soube que
queria ser mãe e esposa um dia mais tarde. Mas para isso tinha que se interessar
por rapazes. Por uma altura suspeitou que fosse lésbica. Pensou que
provavelmente não gostava de rapazes porque se calhar gostava de raparigas. Mas
mesmo assim se gostasse de raparigas por essa altura já deveria ter tido alguma
paixoneta, certo? Não. Não podia ser lésbica. Se fosse lésbica não ficaria tão
entusiasmada cada vez que saísse um filme do Keanu Reaves. Na volta era isso!
Tinha uma paixão platónica por uma estrela de cinema e não conseguia
apaixonar-se por ninguém nem achar interesse em ninguém. Provavelmente era por
isso que achava o rapaz interessante. Ao lembrar-se das feições dele reparou
que ele parecia-se muito com o Keanu Reaves. Riu-se sozinha no quarto. Achou
piada à comparação. A paixoneta temporária iria terminar no momento em que ela
voltasse a ver o filme Matrix. Só teria olhos para o Keanu e o rapaz da
gelataria não tinha nenhuma hipótese, mesmo se aparecesse!
Por outro
lado achava que por parte a culpa de nunca ter achado ninguém interessante era
maioritariamente dos rapazes. Os únicos que tinha achado giros perdiam o
interesse no minuto em que se dirigiram a ela. Engates baratos e conversas da
treta tinham tendência para a enjoar. Não conseguia perceber como é possível
eles saírem-se todos com a mesma linha. Provavelmente havia um professor que
andava a enganar muitos alunos com as suas técnicas frustradas que nunca devem
ter resultado em ninguém.
Devia
haver uma escola de engates para rapazes para evitar que os pobres coitados fizessem
aquelas figuras ridículas com conversas que não lembram a ninguém.
Lembrou-se
de um episódio com um rapaz e começou-se a rir. Estava sentada na porta do
prédio com a Patrícia. As duas sentadas frente à frente e na fofoca. Do nada
surge um rapaz e mete conversa com elas.
“Então
borrachos, o que fazem por aqui?”
“Desculpa?”
“O que
estão a fazer miúdas?”
“Olha
caso não tenhas reparado estávamos aqui a conversar. Ou é preciso fazer um
desenho?”
“A morena
é arisca...”
“Arisca?
Dou-te a arisca. Podes pôr-te a andar daqui? Não vês que estás a incomodar?”
“Ai
Verinha, não precisas de falar assim com o rapaz. Ele até é giro.” Respondeu a
amiga.
“Então se
quiseres eu faço-te um favor e vou lá para cima enquanto ficas aqui a falar com
o João Engatatão.”
“Não
disse isso. Só disse que podemos ser mais educadas. Olha, podes deixar-nos em
paz por favor? Eu e a minha amiga estávamos aqui a conversar.”
“E não
preferes falar comigo boneca? Olha que essa tua amiga é muito má onda.”
“A sério,
vai-te embora. Deixa-nos aqui sossegadas.”
“Patricia,
deixa lá estar que eu sou muito má onda. Daqui a nada vou mostrar o que
significa ser má onda verdadeiramente.”
“És uma
miúda muito mal disposta, sabias? Só vim aqui bater um papo.”
“E eu
disse-te para ires bater um papo para outras bandas. E ainda perguntei se
precisas de um desenho.”
“Verinha,
deixa lá amiga. Se não se vai ele embora vamos nós. A tua mãe já deve ter
preparado um petisco de sonho. Vamos embora.”
“Olha
antes de ires com essa mal encarada não queres dar-me o teu número, boneca?”
Enquanto
dizia isso aproximou-se da Patrícia mas não reparou no degrau. Caiu estatelado
no chão mesmo em frente a elas. Desataram-se as duas a rir às gargalhadas
enquanto o rapaz lutava para se levantar.
“És tão
palerma que nem sabes ver por onde andas. E ainda pensas que podes engatar
“bonecas”. Sinceramente...”
A
Patrícia não conseguia parar de rir. A queda foi tão inesperada e a forma como
ele caiu e o corpo se posicionou não permitiram manter um ar sério. Entraram no
prédio e subiram as escadas a rir.
“Verinha,
sinceramente. Precisavas de ser tão mal educada com o rapaz?” Conseguiu dizer
depois de passar o ataque de riso.
“Não fui
malcriada. Fui arisca!” e romperam numa outra crise de gargalhadas. A mãe até
foi ter com elas ao quarto para saber se estava tudo bem. E quando contaram a história
a mãe abanou a cabeça com ar de reprovação, mas tinha a certeza de a ter ouvido
rir quando fechou a porta do quarto atrás de si.
Não
conseguia deixar de rir sempre que se lembrava daquele episódio. O rapaz não
era mau de todo mas era mesmo estúpido que nem uma porta e ainda ousou
chamá-las de bonecas. Não sabia como a amiga tinha tanta paciência para
namoricos. Mas gostaria muito de ter a oportunidade de conhecer aquele rapaz de
olhos verdes e cabelo espetado. Gostaria muito de ter a oportunidade de saber
se ele é estúpido como todos os outros ou se ainda dizia algo de jeito. Algo
dizia-lhe que não. Algo dizia-lhe que ele tinha muita coisa para contar.

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