domingo, 28 de fevereiro de 2016

Capítulo 3

Era Sábado de manhã. Depois da rotina e da algazarra matinal lá de casa, Verinha ligou à amiga e perguntou se não queria ir com ela à feira da Ladra. A feira da Ladra era uma feira ambulante ao pé da estação de Santa Apolónia que só acontecia aos Sábados. Vendia-se de tudo naquela feira, e Verinha tinha a certeza que até contrabando se vendia por lá. Sempre que lá ia via indivíduos muito suspeitos a vaguear com as mãos a abanar e aparentemente sem intenção de comprar alguma coisa. Então o que lá estavam a fazer? A feira era muito movimentada e atraía pessoas de várias faixas etárias e com diferentes interesses. A paixão que ela tinha pela feira devia-se aos livros. A banda desenhada da turma da Mónica era a sua perdição. Os livros do Chico Bento levavam-lhe sempre às lágrimas de tanto rir. Tinha alguns livros que já tinha lido e precisava ir à feira trocá-los por novos.
“Tu és realmente doida! Tu e a tua obsessão pelo Chico Bento e o Zé Carioca.”
“Anda lá comigo. Não sejas cortes, pah”.
“Não me apetece. Não gosto nada da feira. Aquela subida é muito íngreme e dá-me cabo dos pés.”
“Se pusesses um par de ténis, não te custava tanto!”
“Ténis? Tu já viste a tua mãe de ténis?”
“Sim! No ginásio.”
“E como vai ela vestida para o ginásio? De fato de treino?”
“Não... Vai de vestidinho e troca-se por lá.”
“Pois... E se dizes que eu sou igual à tua mãe porque sugeres que eu vá de ténis. Sabes que nunca faria tal coisa!”
“Mas depois não consegues andar! Anda lá... Por mim...”
“A sério. Vai tu, sozinha. Não me apetece mesmo. Quero ficar a descansar amiga.”
“Ok. Está bem. Vou sozinha então.”
Verinha saiu de casa antes das dez da manhã. Dos Olivais até Santa Apolónia era um pulo e de certeza que estaria por lá antes das dez e meia. Não tinha muitos livros para trocar mas queria aproveitar para dar uma volta pela feira e ver as bancas todas de livros. Às vezes encontrava livros que a mãe gostava de ler e sabia que a mãe ficava sempre à espera que ela lhe levasse algo.
Chegou à feira e começou por dirigir-se imediatamente à bancada que trocava a banda desenhada e ficava no princípio da feira, mesmo no alto da colina. Trocou os livros que tinha e ainda comprou mais alguns. Gostava de levar livros que lhe durassem pelo menos um mês, assim não tinha que voltar com tanta frequência. Na descida foi parando bancada a bancada à procura de livros que pudessem despertar o seu interesse ou o da mãe. Escolheu uns quantos e quando chegou ao final da feira, que ficava junto à estação de comboios, já ia carregada de livros e toda suada. Estava muito calor e a feira, não parecendo, era muito longa. Sentou-se num banquinho em frente à estação para recuperar o fôlego antes de fazer o resto da caminhada até à paragem da camioneta da Carris que lhe iria levar de volta para casa. Abriu uma garrafa de água e deu um gole. Abriu um livro do Chico Bento e começou a ler a primeira história. Já que estava ali a descansar aproveitava para dar uma espreitadela no livro que lhe tinha chamado mais atenção.
“Essa banda desenhada deve ser muito engraçada. Estás aqui a rir sozinha...” falou uma voz que não reconheceu. Parou de ler o livro e levantou o olhar para o estranho que se tinha posto de pé em frente dela a tapar o Sol. Não queria acreditar no que os seus olhos viam. Não podia ser. À sua frente estava aquele rapaz que tinha visto na loja de gelados lá do bairro. Ficou a olhar para ele como se tivesse visto um fantasma.
“Não te assustes que eu não mordo. Vi-te aqui sentada a rir e fiquei curioso. Foi só isso que me trouxe até cá.”
“Não... Não, desculpa. Não é isso. Não estava à espera. Desculpa...”
“Uhm... Conheço-te de algum lado? Acho que já te vi antes...”
“Não, não nos conhecemos mas... Mas acho que já te tinha visto sim. É bem possível. Acho que sim. Há uns dias atrás na gelataria do Francisco... Acho, eu...”
“Ah! Já me lembro. Eras a rapariga que estava com a miúda do vestido verde e sapatos a condizer!”
“Oh! Sim... Pois... Lembro-me sim... fui com a minha amiga depois da escola...” Não tinha noção do motivo que lhe levara a fingir que não se lembrava perfeitamente de onde o tinha visto. Provavelmente não queria dar a entender que ele lhe tinha chamado tanto a atenção. Também não conseguiu deixar de sentir um pouco de ciúmes por ele se ter lembrado da Patrícia. Obviamente que com mais facilidade ele se lembraria da Patrícia com um vestido lindo a condizer, do que dela com um macacão desbotado.
“Lembro-me bem! Achei piada às duas. O contraste chamou-me a atenção, uma com vestidinho toda a arranjada e outra com macacão. É a tua namorada?”
“Minha namorada? Como assim?”
“Se ela é a tua miúda, pah. Estavam as duas ali no café bem juntinhas. Não é vergonha nenhuma pah. Nos dias de hoje é bem normal!”
“Mau, mau... Estás a insinuar que gosto de raparigas?”
“Deu a entender... Ao menos era isso que estávamos todos a comentar...”
“A sério? Vocês estavam a comentar sobre nós?”
“Olha não me leves a mal. Falei de mais. Tenho esse mau hábito sabes? Mas era isso que estávamos todos a pensar naquele dia. Foi por isso que quando te vi aqui tinha a sensação que já te tinha visto em algum lado.”
“Levar a mal? Claro que levo a mal. Não me conheces de lado nenhum e vens para aqui chamar-me de lésbica. Agradecia que te pusesses a andar e me deixasses em paz!”
“Heeeeee... Não te quis ofender! A sério... Isto começou mal... Olha... Desculpa. Vamos começar isto do princípio, ok? Miguel, muito prazer.”
“Qual prazer qual quê? Quero lá saber se te chamas Miguel ou António. Estou-me nas tintas para isso. Desaparece pah!”
“Elahhhhhh.... Falas assim com todos os rapazes que ousam falar contigo? Depois te admiras que fiquem a pensar que gostas de gajas!”
“Não! Não falo assim com todos os rapazes. Falo assim com os inconvenientes e mal educados! E se fosse a ti, a sério, punha-me a andar...”
“Senão bates-me, é isso? Deixa-te de coisas. Já te pedi desculpa. Não foi por mal. Só quis vir meter conversa contigo porque também curto de banda desenhada. Comecei mal... Admito... Va lá... Pazes?”
Verinha parou a olhar para ele. Estava indignada que ele tivesse descaradamente a chamado de lésbica. Ficou com uma raiva que não conseguiu explicar de onde vinha. Nos últimos dias apenas pensava na possibilidade de o voltar a encontrar e quando menos espera encontra-o ali na feira. E ele chama-a de lésbica! Era demais! Não queria acreditar. Ele olhava para ela e via-a como uma “gaja” que gosta de “gajas”. E pior... Pior é que o grupinho todo comentava sobre elas e isso fazia-lhe pensar quantas mais pessoas pensavam assim. Ficou irritada e com uma vontade de lhe dar um estalo. Por pouco não o fez. Teve que se conter! Mas agora ali a olhar para ele não o podia censurar. Vestida com o seu macacão de todos os dias, o cabelo apanhado em rabo de cavalo com um chapéu dos New York Knicks com a pala para o lado, ténis da Nike Air, sem atacadores, a t-shirt provavelmente dois números acima do seu tamanho. Não o podia censurar! Parecia uma autêntica Maria rapaz.
“Xiii... Acho que exagerei... O.K. Vamos começar do início... Olá sou a Verinha... Quero dizer, Vera.”
“Olá Vera, sou o Miguel. Muito prazer...”
Ficaram em silêncio a olhar um para o outro. Verinha teve a oportunidade de observá-lo com mais atenção. Mesmo debaixo daquele calor abrasador ele tinha umas calças pretas, com uma t-shirt e botas pretas, e por cima um casaco de cabedal preto. Os olhos um verde de água muito claros, e o cabelo preto ligeiramente desgrenhado. A tatuagem no braço direito era a cabeça de uma águia.
“O que estás a ler Vera? É a banda desenhada da turma da Mónica?”
“Mais ou menos... Estou a ler o Chico Bento! Sei que é coisa de miúdos mas gosto tanto disto que não resisto. Faz-me rir...”
“Eu também gosto muito de banda desenhada. E não acho que seja coisa de miúdos, sou da opinião que a banda desenhada é mais coisa de adultos do que qualquer outra coisa. Há piadas que os miúdos não conseguem entender...”
“Adultos? Calma lá... Eu ainda sou jovem.”
“Claro que és! E quantos anos tens? Posso saber?”
“Tu gostas muito de fazer preguntas e suposições impertinentes! Hehe. És sempre assim? Falas sempre o que te vem à cabeça? Ouvi dizer que não se pergunta a idade a uma senhora!”
“Sei disso muito bem”. Mas tu agora mesmo disseste que de adulta não tinhas nada, por isso posso perguntar!
“Lá nisso tens razão. Eu disse isso, não disse?”
“Claramente!”
“O.K. Dezoito anos. E tu?”
“Vinte e três.”
“Xiiii... Já és cota, pah!”
“Cheio de cabelos brancos e tudo, miúda.”
E assim, como que do nada, ficaram ali a falar. Passado meia hora parece que já se conheciam há muito tempo. Conversaram sobre os livros de banda desenhada que já tinham lido e chegaram à conclusão que já tinham lido os mesmos livros. Esqueceu-se do calor e de como estava cansada. Ele contou-lhe que tinha-se mudado para a zona de Chelas há pouco tempo e que vinha de Caneças. Os pais separaram-se e a mãe veio para ao pé da avó.
Quando reparou nas horas já passava da uma da tarde! A mãe ia matá-la! Já não ia chegar a casa a tempo do almoço e Sábado era dia de almoço em família. Por muito que lhe custasse teve que se despedir do Miguel.
“Olha, tenho mesmo que ir... A minha mãe vai dar-lhe um treco...”
“Já são estas horas? Credo, falas muito miúda!”
“Eu falo muito? Quem meteu conversa e não se conseguia calar foste tu.”
“Culpado! Heheh”
“Podemos conversar noutro dia. Posso dar-te o meu número se quiseres!”
“Esta é nova! Tu realmente não te dás muito com rapazes, pah. Estás a oferecer-me o teu número de telefone. Devias ao menos ter-me dado luta.”
“Também há regras para se dar o número de telemóvel? Credo, digo eu.”
“Eu sei, não é? Que mundo estranho em que vivemos. LOL.”
“Mas se não quiseres o número, eu não dou...”
 “Então não quero? Quero, quero... Temos de continuar esta conversa outro dia. Afinal de contas eu acho o Cebolinha muito mais engraçado que o Chico Bento e temos que chegar a uma conclusão...”
“Estás completamente enganado! O Chico Bento é mil vezes mais engraçado. Até o modo de falar dá graça...”
“Por isso mesmo temos de continuar esta conversa. Afinal de contas tenho que te fazer mudar de ideias... E dava jeito voltarmos a falar, assim apresentavas-me a tua amiga!”
As palavras dele atingiram-na como uma seta no coração. Todo este tempo estiveram ali a falar sobre banda desenhada e no final o que realmente lhe interessava era conhecer a amiga. Sentiu-se traída pela própria amiga. A Patrícia não tinha culpa, mas sem fazer nada tinha chamado à atenção do deus grego. A ela, ele via apenas como um “amigo”. Até achava que era lésbica. A culpa não era da amiga; a culpa era dela, que sempre insistiu em vestir-se como um rapaz e portar-se como um para afugentar os rapazes. Tinha conseguido na perfeição. Conseguiu afugentar o único rapaz que lhe tinha chamado verdadeiramente a atenção. E ele tinha gostado da amiga. Não valia a pena pensar mais nisso... Quando tivesse a oportunidade apresentava-a. Podiam ser amigos. Falar com ele até tinha sido fixe.
Trocaram os números de telefone e ela seguiu para casa, pronta a enfrentar a mãe. Pronta para enfrentar a mãe enquanto carregava uma flecha espetada no coração...









Sem comentários:

Enviar um comentário