Era
Sábado de manhã. Depois da rotina e da algazarra matinal lá de casa, Verinha ligou
à amiga e perguntou se não queria ir com ela à feira da Ladra. A feira da Ladra
era uma feira ambulante ao pé da estação de Santa Apolónia que só acontecia aos
Sábados. Vendia-se de tudo naquela feira, e Verinha tinha a certeza que até
contrabando se vendia por lá. Sempre que lá ia via indivíduos muito suspeitos a
vaguear com as mãos a abanar e aparentemente sem intenção de comprar alguma
coisa. Então o que lá estavam a fazer? A feira era muito movimentada e atraía
pessoas de várias faixas etárias e com diferentes interesses. A paixão que ela
tinha pela feira devia-se aos livros. A banda desenhada da turma da Mónica era
a sua perdição. Os livros do Chico Bento levavam-lhe sempre às lágrimas de
tanto rir. Tinha alguns livros que já tinha lido e precisava ir à feira
trocá-los por novos.
“Tu és
realmente doida! Tu e a tua obsessão pelo Chico Bento e o Zé Carioca.”
“Anda lá
comigo. Não sejas cortes, pah”.
“Não me
apetece. Não gosto nada da feira. Aquela subida é muito íngreme e dá-me cabo
dos pés.”
“Se pusesses
um par de ténis, não te custava tanto!”
“Ténis?
Tu já viste a tua mãe de ténis?”
“Sim! No
ginásio.”
“E como
vai ela vestida para o ginásio? De fato de treino?”
“Não...
Vai de vestidinho e troca-se por lá.”
“Pois...
E se dizes que eu sou igual à tua mãe porque sugeres que eu vá de ténis. Sabes
que nunca faria tal coisa!”
“Mas
depois não consegues andar! Anda lá... Por mim...”
“A sério.
Vai tu, sozinha. Não me apetece mesmo. Quero ficar a descansar amiga.”
“Ok. Está
bem. Vou sozinha então.”
Verinha saiu
de casa antes das dez da manhã. Dos Olivais até Santa Apolónia era um pulo e de
certeza que estaria por lá antes das dez e meia. Não tinha muitos livros para
trocar mas queria aproveitar para dar uma volta pela feira e ver as bancas
todas de livros. Às vezes encontrava livros que a mãe gostava de ler e sabia
que a mãe ficava sempre à espera que ela lhe levasse algo.
Chegou à
feira e começou por dirigir-se imediatamente à bancada que trocava a banda
desenhada e ficava no princípio da feira, mesmo no alto da colina. Trocou os
livros que tinha e ainda comprou mais alguns. Gostava de levar livros que lhe
durassem pelo menos um mês, assim não tinha que voltar com tanta frequência. Na
descida foi parando bancada a bancada à procura de livros que pudessem
despertar o seu interesse ou o da mãe. Escolheu uns quantos e quando chegou ao
final da feira, que ficava junto à estação de comboios, já ia carregada de
livros e toda suada. Estava muito calor e a feira, não parecendo, era muito
longa. Sentou-se num banquinho em frente à estação para recuperar o fôlego
antes de fazer o resto da caminhada até à paragem da camioneta da Carris que
lhe iria levar de volta para casa. Abriu uma garrafa de água e deu um gole.
Abriu um livro do Chico Bento e começou a ler a primeira história. Já que
estava ali a descansar aproveitava para dar uma espreitadela no livro que lhe
tinha chamado mais atenção.
“Essa
banda desenhada deve ser muito engraçada. Estás aqui a rir sozinha...” falou
uma voz que não reconheceu. Parou de ler o livro e levantou o olhar para o
estranho que se tinha posto de pé em frente dela a tapar o Sol. Não queria
acreditar no que os seus olhos viam. Não podia ser. À sua frente estava aquele
rapaz que tinha visto na loja de gelados lá do bairro. Ficou a olhar para ele como se tivesse visto um fantasma.
“Não te
assustes que eu não mordo. Vi-te aqui sentada a rir e fiquei curioso. Foi só
isso que me trouxe até cá.”
“Não...
Não, desculpa. Não é isso. Não estava à espera. Desculpa...”
“Uhm...
Conheço-te de algum lado? Acho que já te vi antes...”
“Não, não
nos conhecemos mas... Mas acho que já te tinha visto sim. É bem possível. Acho
que sim. Há uns dias atrás na gelataria do Francisco... Acho, eu...”
“Ah! Já
me lembro. Eras a rapariga que estava com a miúda do vestido verde e sapatos a
condizer!”
“Oh!
Sim... Pois... Lembro-me sim... fui com a minha amiga depois da escola...” Não
tinha noção do motivo que lhe levara a fingir que não se lembrava perfeitamente
de onde o tinha visto. Provavelmente não queria dar a entender que ele lhe
tinha chamado tanto a atenção. Também não conseguiu deixar de sentir um pouco
de ciúmes por ele se ter lembrado da Patrícia. Obviamente que com mais
facilidade ele se lembraria da Patrícia com um vestido lindo a condizer, do que
dela com um macacão desbotado.
“Lembro-me
bem! Achei piada às duas. O contraste chamou-me a atenção, uma com vestidinho
toda a arranjada e outra com macacão. É a tua namorada?”
“Minha
namorada? Como assim?”
“Se ela é
a tua miúda, pah. Estavam as duas ali no café bem juntinhas. Não é vergonha
nenhuma pah. Nos dias de hoje é bem normal!”
“Mau,
mau... Estás a insinuar que gosto de raparigas?”
“Deu a
entender... Ao menos era isso que estávamos todos a comentar...”
“A sério?
Vocês estavam a comentar sobre nós?”
“Olha não
me leves a mal. Falei de mais. Tenho esse mau hábito sabes? Mas era isso que
estávamos todos a pensar naquele dia. Foi por isso que quando te vi aqui tinha
a sensação que já te tinha visto em algum lado.”
“Levar a
mal? Claro que levo a mal. Não me conheces de lado nenhum e vens para aqui
chamar-me de lésbica. Agradecia que te pusesses a andar e me deixasses em paz!”
“Heeeeee...
Não te quis ofender! A sério... Isto começou mal... Olha... Desculpa. Vamos
começar isto do princípio, ok? Miguel, muito prazer.”
“Qual
prazer qual quê? Quero lá saber se te chamas Miguel ou António. Estou-me nas
tintas para isso. Desaparece pah!”
“Elahhhhhh....
Falas assim com todos os rapazes que ousam falar contigo? Depois te admiras que
fiquem a pensar que gostas de gajas!”
“Não! Não
falo assim com todos os rapazes. Falo assim com os inconvenientes e mal
educados! E se fosse a ti, a sério, punha-me a andar...”
“Senão
bates-me, é isso? Deixa-te de coisas. Já te pedi desculpa. Não foi por mal. Só
quis vir meter conversa contigo porque também curto de banda desenhada. Comecei
mal... Admito... Va lá... Pazes?”
Verinha
parou a olhar para ele. Estava indignada que ele tivesse descaradamente a
chamado de lésbica. Ficou com uma raiva que não conseguiu explicar de onde
vinha. Nos últimos dias apenas pensava na possibilidade de o voltar a encontrar
e quando menos espera encontra-o ali na feira. E ele chama-a de lésbica! Era
demais! Não queria acreditar. Ele olhava para ela e via-a como uma “gaja” que
gosta de “gajas”. E pior... Pior é que o grupinho todo comentava sobre elas e
isso fazia-lhe pensar quantas mais pessoas pensavam assim. Ficou irritada e com
uma vontade de lhe dar um estalo. Por pouco não o fez. Teve que se conter! Mas
agora ali a olhar para ele não o podia censurar. Vestida com o seu macacão de
todos os dias, o cabelo apanhado em rabo de cavalo com um chapéu dos New York
Knicks com a pala para o lado, ténis da Nike Air, sem atacadores, a t-shirt
provavelmente dois números acima do seu tamanho. Não o podia censurar! Parecia
uma autêntica Maria rapaz.
“Xiii...
Acho que exagerei... O.K. Vamos começar do início... Olá sou a Verinha... Quero
dizer, Vera.”
“Olá
Vera, sou o Miguel. Muito prazer...”
Ficaram
em silêncio a olhar um para o outro. Verinha teve a oportunidade de observá-lo
com mais atenção. Mesmo debaixo daquele calor abrasador ele tinha umas calças
pretas, com uma t-shirt e botas pretas, e por cima um casaco de cabedal preto.
Os olhos um verde de água muito claros, e o cabelo preto ligeiramente
desgrenhado. A tatuagem no braço direito era a cabeça de uma águia.
“O que
estás a ler Vera? É a banda desenhada da turma da Mónica?”
“Mais ou
menos... Estou a ler o Chico Bento! Sei que é coisa de miúdos mas gosto tanto
disto que não resisto. Faz-me rir...”
“Eu
também gosto muito de banda desenhada. E não acho que seja coisa de miúdos, sou
da opinião que a banda desenhada é mais coisa de adultos do que qualquer outra
coisa. Há piadas que os miúdos não conseguem entender...”
“Adultos?
Calma lá... Eu ainda sou jovem.”
“Claro
que és! E quantos anos tens? Posso saber?”
“Tu
gostas muito de fazer preguntas e suposições impertinentes! Hehe. És sempre
assim? Falas sempre o que te vem à cabeça? Ouvi dizer que não se pergunta a
idade a uma senhora!”
“Sei
disso muito bem”. Mas tu agora mesmo disseste que de adulta não tinhas nada,
por isso posso perguntar!
“Lá nisso
tens razão. Eu disse isso, não disse?”
“Claramente!”
“O.K.
Dezoito anos. E tu?”
“Vinte e
três.”
“Xiiii...
Já és cota, pah!”
“Cheio de
cabelos brancos e tudo, miúda.”
E assim,
como que do nada, ficaram ali a falar. Passado meia hora parece que já se
conheciam há muito tempo. Conversaram sobre os livros de banda desenhada que já
tinham lido e chegaram à conclusão que já tinham lido os mesmos livros.
Esqueceu-se do calor e de como estava cansada. Ele contou-lhe que tinha-se
mudado para a zona de Chelas há pouco tempo e que vinha de Caneças. Os pais
separaram-se e a mãe veio para ao pé da avó.
Quando
reparou nas horas já passava da uma da tarde! A mãe ia matá-la! Já não ia
chegar a casa a tempo do almoço e Sábado era dia de almoço em família. Por
muito que lhe custasse teve que se despedir do Miguel.
“Olha,
tenho mesmo que ir... A minha mãe vai dar-lhe um treco...”
“Já são
estas horas? Credo, falas muito miúda!”
“Eu falo
muito? Quem meteu conversa e não se conseguia calar foste tu.”
“Culpado!
Heheh”
“Podemos
conversar noutro dia. Posso dar-te o meu número se quiseres!”
“Esta é
nova! Tu realmente não te dás muito com rapazes, pah. Estás a oferecer-me o teu
número de telefone. Devias ao menos ter-me dado luta.”
“Também
há regras para se dar o número de telemóvel? Credo, digo eu.”
“Eu sei,
não é? Que mundo estranho em que vivemos. LOL.”
“Mas se
não quiseres o número, eu não dou...”
“Então não quero? Quero, quero... Temos de continuar esta conversa outro dia. Afinal de contas eu acho o Cebolinha muito mais engraçado que o Chico Bento e temos que chegar a uma conclusão...”
“Então não quero? Quero, quero... Temos de continuar esta conversa outro dia. Afinal de contas eu acho o Cebolinha muito mais engraçado que o Chico Bento e temos que chegar a uma conclusão...”
“Estás
completamente enganado! O Chico Bento é mil vezes mais engraçado. Até o modo de
falar dá graça...”
“Por isso
mesmo temos de continuar esta conversa. Afinal de contas tenho que te fazer
mudar de ideias... E dava jeito voltarmos a falar, assim apresentavas-me a tua
amiga!”
As
palavras dele atingiram-na como uma seta no coração. Todo este tempo estiveram
ali a falar sobre banda desenhada e no final o que realmente lhe interessava
era conhecer a amiga. Sentiu-se traída pela própria amiga. A Patrícia não tinha
culpa, mas sem fazer nada tinha chamado à atenção do deus grego. A ela, ele via
apenas como um “amigo”. Até achava que era lésbica. A culpa não era da amiga; a
culpa era dela, que sempre insistiu em vestir-se como um rapaz e portar-se como
um para afugentar os rapazes. Tinha conseguido na perfeição. Conseguiu
afugentar o único rapaz que lhe tinha chamado verdadeiramente a atenção. E ele
tinha gostado da amiga. Não valia a pena pensar mais nisso... Quando tivesse a
oportunidade apresentava-a. Podiam ser amigos. Falar com ele até tinha sido
fixe.
Trocaram os
números de telefone e ela seguiu para casa, pronta a enfrentar a mãe. Pronta
para enfrentar a mãe enquanto carregava uma flecha espetada no coração...



