sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Capítulo 1


Capítulo 1 – Verinha


Verinha acordou com o som do despertador. Sabia que tinha que se levantar mas pensou para si mesma que hoje, por ser hoje o seu dia, tinha direito a mais uns minutinhos. “Só mais um bocadinho, mãe”, bocejou, espreguiçou-se e fechou os olhos uma vez mais. Não conseguiu dormir mais, bem que tentou abstrair a sua mente do turbilhão de pensamentos que a invadiam, mas não conseguiu. Levantou-se muito a custo, rezingona e mal disposta.

A mãe já estava na cozinha com o seu cantarolar matinal e às seis da manhã já tinha o lanche dela e dos irmãos preparados, o almoço já pronto e a cozinha praticamente arrumada. O pequeno-almoço já estava servido: ovos mexidos, fiambre, queijo, tostas, marmelada, sumo de laranja e cenoura e bolinho de laranja. “Que delícia”, pensou para si enquanto deu um beijo à mãe como forma de agradecimento. A sua mãe até parecia que tinha tirado o curso de melhor mãe do mundo. Estava sempre sorridente, a casa sempre num brinco, refeições caseiras e deliciosas todos os dias, roupas sempre arrumadinhas e engomadas…

Enfim... Verinha só queria que quando tivesse a sua família fosse tão boa mãe quanto a dela. Ao pensar nisto sentiu-se um pouco culpada, porque ultimamente mal tinha tempo para ajudar a mãe. Mas a mãe não parecia se importar e parecia até aliviada quando Verinha se fechava no quarto com a amiga Patrícia. “Ao menos sei com quem andas, filha. Prefiro ver-vos nos segredinhos do que não saber onde andas”, dizia a mãe.

De repente, um barulho semelhante a uma manada de elefantes em fuga, fez-se sentir pela casa. “Lá vêm os gémeos” pensou Verinha para si. Os irmãos pareciam uns loucos ligados a pilhas Duracell, com energia para dar e vender. Paulo e Pedro. Pedro e Paulo. Achava graça aos irmãos que se apelidavam “ P e P”. Ainda bem que saiu da cama uns minutos antes deles, caso contrário teria comido migalhas, tal era a fome dos gémeos.

Depois de terminado o pequeno almoço ajudou a mãe com os pratos e foi-se arranjar. Só quando estava a escolher a roupa é que se apercebeu que nem a mãe, nem os irmãos lhe tinham dado os parabéns, ou feito nenhuma alusão ao seu aniversário. Sentiu-se um pouquinho triste mas sacudiu a tristeza e pensou para si mesma: “Devem estar a fingir que se esqueceram para depois me surpreenderem. Tolinhos. Todos os anos é a mesma coisa.”.

Escolheu umas calças de ganga largas e a sua t-shirt favorita. Deu um jeitinho ao cabelo, e fez um rabo-de-cavalo apressado. Mal se olhou ao espelho. Nunca foi dada de muitas mariquices e não percebia porque é que as amigas perdiam horas ao espelho a escolherem roupa, fazerem o cabelo, porem maquilhagem. Tontices.

Mas na realidade Verinha não precisava de muito. Não era uma rapariga muito alta mas era esbelta e delicada, tinha corpo de viola. As amigas invejavam-lhe o corpo e Verinha preferia escondê-lo nas suas jeans e t-shirts largas. Preferia assim, sentia-se mais confortável. Já várias vezes a mãe lhe dera vestidos, e a amiga Patrícia insistia para que ela usasse as suas roupas para salientar as curvas que tinha. “Não percebo como não usas roupas que mostrem esse corpo que Deus te deu amiga. Que inveja. Se eu tivesse essas curvas, ui ui. Andava por aí a partir corações. Com as tuas curvas e o cabelo pelas costas cor de amêndoa como o teu não me faltariam pretendentes. Ai isso é que não”. Verinha ria-se sempre da amiga, nem sabia porque é que ela só pensava em namoricos. Os rapazes eram tão chatos. Aos 18 anos nenhum lhe interessara e gostava muito mais de sentar-se a ler um livro do que a perder tempo em conversas com rapazes que só diziam baboseiras.

“Verinha. Se não te despachas a mãe não te pode dar boleia, filha”, gritou a mãe da cozinha. “Já vou, já vou”, respondeu ela enquanto descia as escadas a correr.

A mãe quando a viu vestida apenas abanou a cabeça. Verinha já sabia que a mãe não aprovava a sua maneira de vestir. A mãe sempre foi muito feminina, andava sempre com vestidinhos, unhas feitas e maquilhagem. Nem parecia normal, uma mulher que não trabalhava e passava o dia em casa, sempre tão bonita e aprumada. A mãe dizia que nunca se sabe quem nos bate à porta e que temos que estar sempre prontas para sair. O pai também comentava o facto de a mãe estar sempre arranjadinha, mas quando chegava do trabalho sorria e dizia “Minha gata borralheira, de dia dona de casa e à noite a minha princesa. Um dia hei-de dar-te um palácio”. E depois disto eram só beijos e abraços. Mas o segredo devia ser esse. Se quando o pai chegasse a casa encontrasse a mãe a cheirar a gordura e com nódoas na roupa, de certeza que não iriam haver tantos beijos e abraços. A mãe lá sabia o que fazia. Talvez por isso fossem tão felizes.

“Mas eu também nunca me iria dar ao trabalho que a mãe se dá. Quem gostar de mim que goste assim”, pensou enquanto olhava para a rua no banco da frente do pequeno Skoda da mãe. Os gémeos lá atrás faziam a algazarra do costume, nem parecia que tinham 10 anos. “Que pirralhos”, pensou enquanto sorria feliz por ter aqueles irmãos que tanto amava.

Antes mesmo de a mãe parar ao pé da escola, já Verinha tinha avistado a Patrícia. Sentada no banco em frente à escola, com o seu vestido verde coladinho ao corpo e uns sapatinhos de salto a combinar. O cabelo apanhado numa trança, os olhos maquilhados de leve com um verde cinza a condizer com o vestido, e os lábios no seu tom vermelho característico. Verinha achava graça a Patrícia, mais parecia filha da mãe dela do que ela.

Despediu-se da mãe e dos pequenos terroristas e foi ter com a amiga. Abraçaram-se como se não se vissem há seculos, quando na realidade estiveram juntas ainda na noite anterior depois do jantar. Sempre foram assim desde miúdas. Inseparáveis. As personalidades sempre foram muito diferentes mas parece que era isso que mais as juntava. Verinha era a típica maria-rapaz enquanto Patrícia era a menina de coro. Recebeu um presente da amiga. Uma t-shirt em tons de verde. “Já que não usas vestidos pensei que uma t-shirt a combinar com o meu vestido vinha a calhar. Assim podemos vestir de cores iguais”, disse a amiga em tom brincalhão. “Nem sequer me sei enfiar num vestido amiga. No outro dia a minha mãe obrigou-me a experimentar um. Fiquei com ele preso entre os braços e a cabeça. Mal conseguia respirar. Até tive que gritar por socorro. Que figura ridícula. Eu e a mãe ficamos que nem perdidas a rir, depois de ela me ter ajudado a sair daquela figura, e jurei para nunca mais amiga”. E com isto ficaram as duas a rir que nem umas desalmadas à porta da escola.

O dia arrastou-se mais do que o habitual. Parecia que as aulas nunca mais acabavam. O semestre já ia no fim e os professores insistiam na preparação para os exames nacionais, a escolha da universidade e como a partir de agora o futuro dependia apenas deles. Pareciam mais preocupados que os alunos. Quanto ao futuro, Verinha não sabia o que lhe esperava. Sempre tivera notas razoáveis mas não tinha intenções de ir para a faculdade. Sabia que essa decisão iria ser mais um motivo de guerra com os pais.

Quando as aulas acabaram Verinha e Patrícia saíram da escola a correr como o diabo foge da cruz. Verinha ainda estava estupefacta por se aperceber que tinha conseguido passar o aniversário sem nenhum dos professores ou colegas se lembrarem. Estupefacta, mas feliz já que ela detestava ser o centro das atenções.

Quando chegaram à gelataria com os corações disparados, como que a querer sai pela boca, sentaram-se no canto do costume e puseram-se a falar dos sonhos de cada uma. Patrícia não queria ir para a Universidade, nem pensava em trabalhar. Queria encontrar um namorado, casar-se e ter filhos. Queria ser a melhor mãe do mundo, tal como a mãe da Verinha. Verinha não queria ir para a Universidade mas tencionava ajudar o pai no escritório que contabilidade. Sempre foi boa com contas e apenas seria administrativa. Organizada como era não lhe parecia difícil e o pai já há muito que se queixava que precisava de ajuda.

Um grupo de arruaceiros entrou na gelataria. Não deviam ser da zona, uma vez que não reconheceram nenhum deles. Verinha ficou como que parada no tempo a olhar para o último rapaz que entrou. Alto, cabelo preto curto, com um ar ligeiramente despenteado, olhos esverdeados, uma tatuagem no braço que ela não conseguia decifrar. Trazia uns jeans, t-shirt e umas botas pretas “ à motoqueiro”. O sorriso dele, de orelha a orelha, era a coisa mais linda que ela já tinha visto. E ficou para ali assim, parada, especada a olhar. Sentiu uma cotovelada da amiga, e saíu do transe. “Ai ai amiga, vistes um fantasma ou quê?”. “Não Patrícia, finalmente percebi qual a definição de deus grego. Nunca vi um rapaz assim. Viste? Tu viste o último rapaz que entrou?”. Patrícia riu-se e disse que o rapaz até nem era nada de especial, mas gostos não se discutem. Comentou até que estava aliviada por ver a amiga interessada num rapaz, uma vez que já estava a perder a esperança.

Em casa esperava-a uma festa com a devida pompa e circunstância. Todas as suas delícias favoritas decoravam a mesa e foi recebida com beijos e abraços e muitos presentes. Sorriu, agradeceu, divertiu-se até. Mas não lhe saía da cabeça aquele rapaz, o rapaz moreno com olhos verdes. Desejou nesse dia ter seguido o conselho da mãe e ter usado uma roupa que lhe delineasse as curvas, que a fizesse parecer mais mulher. A mulher que acabara de fazer 18 anos e iria iniciar oficialmente a sua vida adulta. “Provavelmente se tivesse vestida de outra maneira, ele teria olhado para mim”, suspirou já deitada na cama, mas sem conseguir dormir. “Nem sei como se chama, nem sei de onde veio. Pareço uma tonta...”, falava para si em voz alta.

É incrível como em pequenos segundos, numa fracção de momento as nossas convicções mudam e os nossos planos são temporariamente postos de lado ou mesmo alterados.  Nada importava a Verinha, o seu objetivo passou a ser voltar a encontrar aquele rapaz, saber quem era ele, conhecê-lo... Serem amigos, quem sabe? Amanhã teria de ir às compras, comprar umas roupas que a favorecessem mais. De maneira nenhuma poderia correr o risco de se cruzar com o deus grego na rua vestida como um autêntico rapaz. Queria causar uma boa impressão. Iria pedir à Patrícia para irem ao Centro Comercial Vasco da Gama, na estação do Oriente, comprar umas roupinhas novas. Não conseguia dormir. E tardava o amanhecer...

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